quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Sexo depois do aborto

Talvez não haja tema tão estranho e subjectivo como este. Desconfortável.
Por um lado há a parte física. Há a recuperação, quer seja da intervenção, quer seja da expulsão natural que tem uma recuperação mais lenta. Essa depende de cada mulher. No caso da expulsão natural, o baixo ventre fica bastante dorido durante uma ou duas semanas, e durante esse período queremos mexer-nos pouco.
O grande problema pode ser - e normalmente é, claro - o lado emocional. Aquelas semanas com o embrião sem vida dentro de nós provocam-nos uma sensação ambígua. Por um lado sentimo-nos fisicamente perfeitamente bem. Por outro lado sabemos que há uma situação por resolver dentro de nós. É uma questão tão pessoal... Acho que não hájulgamento possível a fazer sobre quem opta por interromper a vida sexual ou quem opta por continuá-la durante esse período. É importante, isso sim, ter todos os cuidados e, não me canso de dizê-lo, ser bem seguida num médico. E no caso de uma hemorragia forte, voar para a urgência. Quanto a dores durante o acto, julgo que só senti uma ou duas vezes, e de forma ligeira. Atenção às dores fortes e frequentes, que devem ser rapidamente analisadas.
Julgo que acima de tudo, o que importa é a mulher sentir-se novamente mulher em todas as acepções da palavra. O que aconteceu aconteceu. É um processo natural, como tantos outros. E a mulher tem voltar a abraçar a sua sexualidade, porque essa também é natural. E é essencialmente uma forma voltar a partilhar a proximidade emocional com o parceiro. Poderá haver mulheres que associem a relação sexual a toda a situação que daí decorreu. Também não foi o meu caso. Para mim foi um sinal essencial do regresso à vida normal, do ultrapassar de um momento difícil, do amor que eu e o meu parceiro partilhamos.
Há que ter em atenção que, após a expulsão, já pode existir a possibilidade de engravidar novamente, já que a qualquer momento é possível voltar a ovular. Todos os médicos dizem que não se deve engravidar antes de aparecer a primeira menstruação, por isso muito cuidado. Outros são da opinião que se devem aguardar pelos menos 3 meses. Em todo o caso, a prevenção é essencial e nada de nos fiarmos que, só porque se abortou há 2 ou 3 semanas, ainda não é possível engravidar. É. E não é de todo recomendável, segundo os médicos.
Claro que há receios. Pode até haver peso na consciência. Mas, cada uma no seu tempo, é na minha opinião fulcral abrir os braços à sexualidade. É um caminho para amarmos e sentirmo-nos amadas. E principalmente para sentirmos novamente que tudo é possível!

sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Quando acontece novamente

Recebi hoje esta mensagem da Ana, que não posso deixar de partilhar.

"São 03h35 da manhã e eu estou a fazer tempo por não conseguir dormir. amanhã tenho a minha 1ª consulta de estudo de abortos de repetição pois já lá vão 3. Também passei por 2 com Cytotec um deles com direito a internamento tais eram as dores. Vim a saber mais tarde por alguém que passou pelo mesmo mas que hoje é mãe que as dores são como as dores de parto. ora se assim for venham elas pois depois de 10 dias a agonizar noite e dia pior não pode ser com certeza.
Deste blog posso apenas agradecer o testemunho e a coragem pois eu nunca o consegui fazer e ainda hoje, 1 ano e meio depois do último aborto, aquelas caras sorridentes e barrigudas na MAC mexem comigo.
talvez depois de amanhã eu ganhe coragem para pôr por palavras tudo aquilo porque passei para que em última análise possa, como este blog, servir de alento a alguém que como eu procura acalmar a sua ansiedade.
Mais uma vez, OBRIGADA."

Olá, Ana
Como não deixaste o teu email, quero responder-te, mesmo que seja por aqui.
É muito difícil passar por um, não imagino sequer a dor de passar por três. Mas há três coisas que posso dizer.
A primeira é que, acima de tudo, tens a tua saúde. Podem parecer palavras vazias, mas depois do que passei, mais do que nunca dou valor a estar fisicamente bem e saber que tenho a vida pela frente.
A segunda é que tudo é mesmo possível. Para falar de alguém bem conhecido, a Sofia Loren teve 2 abortos, e só depois descobriu que tinha um problema hormonal. Fazendo um tratamento, e com muito descanso, conseguiu ter de seguida dois filhos perfeitamente saudáveis. Por isso a tua consulta pode ser o início de um caminho para dias mais felizes.
Mas eu acredito que, mesmo quando este sonho não é possível desta forma, é possível de outras. Ser mãe está longe de ter a ver com os 9 meses na barriga. E o que de início pode parecer uma profunda tristeza, pode vir a ser a causa da felicidade de uma criança que vive algures no mundo, infeliz e abandonada à espera de uma família. Quem sabe à espera de nós. Acredito que esse é um sentimento de felicidade inimaginável para a mulher que com ela se torna mãe. Conheço várias pessoas que o fizeram e a felicidade nos olhos delas é ainda maior do que a das mães naturais, porque é a realização de um sonho que parecia impossível.

Compreendo bem a sensação de ver as mulheres grávidas, as mães com bebés recém-nascidos... Eu tenho uma colega de trabalho que engravidou ao mesmo tempo que eu. Com ela correu tudo bem, comigo não. Todos os dias assisto àquela barriga a crescer, à felicidade dela, aos planos, à expectativa... Amanhã seria o dia previsto do nascimento para mim, mas não vou vivê-lo. Ela vai.
Pois é, as coisas nem sempre correm como sonhamos. Às vezes temos mesmo que lutar e sofrer até conseguir. Mas no final, quando conseguimos, seja de que forma for, vai ter um sabor muito muito especial.

terça-feira, 6 de Maio de 2008

À espera do primeiro período

Esta é uma espera que agoniza muitas mulheres. Porque simplesmente não se sabe. Quando vai aparecer? Quanto tempo vou esperar? Como vai ser? Vai doer, vai ser forte, vai ser curto?
Para mim a maior preocupação era simplesmente que ele viesse. Porque isso para mim era um sinal de saúde, e acima de tudo um sinal de que tinha voltado a ovular. Ainda tive que esperar um bocado.
O médico tinha-me dito que deveria aparecer entre 2 a 6 semanas após o fim da limpeza. Entre o dia em que começou a expulsão e o primeiro dia do primeiro período passaram 9 semanas. Entre o dia em que parei de sangrar e a primeira menstruação passaram quase 5 semanas. Julgo que, para quem faz a curetagem, a espera não é tão longa.
Mas como o aparecimento da menstruação era uma perfeita incógnita, optei por não matutar no assunto. Na verdade estava feliz por estar bem, sem dores, e feliz por o meu corpo ter tratado do assunto sozinho, sem ser precisa qualquer intervenção.
Há mulheres para quem o aparecimento da menstruação traz de volta o trauma da expulsão, já que a aparência e até alguma da sensação são bastante semelhantes. A moínha ou câmbrias nos ovários, a aparência do sangue, escuro e com coágulos. Faz de facto lembrar e é difícil para muitas mulheres. Não foi o meu caso. No dia em que finalmente o período me apareceu, senti uma alegria enorme! E tive vontade de ir pelos corredores do meu trabalho fora, a anunciar a toda a gente “Apareceu-me o período!!!!” Na verdade, foi como se tivesse voltado a ser normal, igual às outras mulheres. E melhor do que tudo, tinha novamente em aberto a decisão de tentar engravidar.
A primeira menstruação foi bastante forte. E, tal como as duas seguintes, foi longa. As três primeiras menstruações duraram cerca de 10 dias, sendo os últimos 4 dias de cada ciclo já com sangramento bastante mais leve. As menstruações seguintes voltaram à perfeita normalidade, que no meu caso são 3 ou 4 dias, mas que difere de mulher para mulher.
É importante realçar a importância de ir ao médico logo a seguir a surgir a primeira menstrução, para que se façam todos os exames de sangue, ecografias e outros eventualmente necessários. É fulcral confirmar que está tudo bem, independentemente de se pretender ou não voltar a engravidar. Esta é uma fase em que é não só nosso direito mas também nosso dever assegurar a nossa total recuperação e a nossa saúde. Antes de voltar a pensar no futuro.

segunda-feira, 24 de Março de 2008

A Curetagem

Como não passei por esta intervenção, a única informação de que disponho foi recolhida de várias fontes na internet e de algumas pessoas que partilharam alguns detalhes comigo.
“Curetagem” é uma palavra com que os médicos atiram às mulheres, como se elas estivessem todas perfeitamente por dentro do assunto.
A Curetagem é a raspagem com cureta, um instrumento cirúrgico em forma de colher, com os bordos cortantes que serve para fazer raspagens em superfícies côncavas.
A Curetagem, também chamada D&C, Dilatação e Curetagem, consiste na dilatação do colo do útero para acesso ao interior do útero através da vagina para raspagem dos restos do produto da concepção.
Pode soar terrivelmente, mas pelo que pude apurar, e pelo que os próprios médicos me disseram, o processo envolve pouca dor, e é possível iniciá-lo de manhã no hospital e regressar para casa ao final do dia. Conheço uma mulher que estava a trabalhar no dia seguinte. Contudo, é aconselhado permanecer em repouso um a dois dias. A mulher deverá estar atenta ao aparecimento de febre, persistência de cólica abdominal intensa ou duradoura, ou persistência de sangramento vaginal intenso.
Como tudo, tem desvantagens e vantagens. Por um lado, a mulher tem que ser submetida a uma anestesia geral, e existe um risco de, no processo de raspagem, o endométrio, o fino revestimento do útero, ser danificado, o que pode trazer dificuldades para uma próxima gravidez. Por outro lado, a mulher não tem que viver semanas com o feto sem vida dentro de si, o que a poupa de toda a tensão emocional que isso pode acarretar, não corre um grande risco de infecção, e não tem que passar pelas dores da expulsão.
A decisão de aguardar ou fazer a intervenção não é fácil. A melhor atitude a tomar é contar com o médico, fazer-lhe todas as perguntas, esclarecer todas as dúvidas, e decidir com conhecimento dos dois caminhos, reconhecendo qual aquele que cada uma está mais preparada para enfrentar.

Se houver aí fora uma mulher que tenha passado pela Curetagem e queira ajudar outras nesta encruzilhada, peço que me ajude a desmistificar esta situação, partilhando como foi e o que sentiu.

sábado, 8 de Março de 2008

Falar

De início eu também não queria que ninguém soubesse. Só a minha família próxima e duas ou três outras pessoas souberam. Mas minha mãe não é assim tão reservada como eu, e começou a comentar com as amigas, as vizinhas... Depois eu própria contei a mais pessoas. E descobri algo – para mim naquela altura – surpreendente. Não houve até hoje uma única pessoa que não me tivesse dito que lhe tinha acontecido ou mesmo ou conhecia alguém a quem aconteceu o mesmo. Só na sala onde trabalho, outras duas mulheres já tinham passado pelo mesmo. E essas foram aquelas a quem eu contei. A uma outra, tinha acontecido o mesmo à prima. À minha tia sucedeu três vezes. À mãe de um amigo meu aconteceu duas. À minha própria mãe aconteceu uma. A lista é infinita. E importante. Porque nesta altura precisamos de nos sentir normais, precisamos de sentir que não somos as únicas, precisamos de abdicar daquele sentimento de injustiça.

Por isso é bom falar. Quando se está preparada, é claro, mas falar. Não dramatizar nem fecharmo-nos no nosso mundo de vítima. E abrir os olhos para o facto de que tantas outras mulheres já passaram pelo mesmo, e os seus sonhos vieram a concretizar-se.

Falar é descomplicar, é destramatizar, é aceitar com mais naturalidade.

Ficam-me as palavras da médica que me fez a ecografia em que se fez o diagnóstico:

“Sabe como é que chamavam a isto no meu tempo? Um atraso. É tão comum, é apenas um atraso.”

quinta-feira, 6 de Março de 2008

Estar parada

Em Portugal, uma mulher que sofra um aborto tem direito a 30 dias de baixa. Como não tinha sintomas, eu ainda fui trabalhar durante uma semana, pois achei que o trabalho iria distrair-me e dar-me outros objectivos. Poderá funcionar para algumas mulheres, para mim não funcionou. Tinha falta de concentração e muita falta de paciência para tudo e todos. E tinha a sensação de que as pessoas continuavam a exigir tudo de mim, quando eu não estava em condições. É claro que elas não sabiam o que se passava, mas isso não impedia que eu sentisse a injustiça.

Cuidado com este tempo de repouso, porque em casa, sem qualquer exercício, com pouca coisa que nos dê pequenos prazeres, com muito tempo nas mãos, farta de estar deitada e estando muito melhor em pé que sentada, a comida é a salvação óbvia. Ainda por cima depois de passar por um momento tão difícil, sentimo-nos no direito de nos compensarmos com sobremesas, chocolates e outras desgraças... e ao fim de um mês descobrimos que existe muito mais de nós do que antes disto tudo começar...!

Quantas vezes estamos no trabalho desejando estar em casa? Pois esta pode ser uma oportunidade para nos dedicarmos àqueles hobbies para os quais nunca temos tempo. Ler, escrever, ouvir música, navegar na internet, dedicarmo-nos mais aos nossos... E se não nos apetecer pensar, podemos sempre comprar uns DVDs de séries leves ou cómicas, e mergulhar durante uns dias num mundo mais ligeiro e sem complicações.

Os sentimentos negativos e de revolta podem ressurgir nesta fase. É natural. Mas esta é uma fase em que devemos apenas ter cuidado connosco, sermos sempre seguidas pelo médico, e caso ele assim o indique, aguardar com calma o desenrolar da situação, porque não há muito mais a fazer. E não ser sermos positivas para ajudar a recuperação.

quarta-feira, 5 de Março de 2008

Expulsão - o que realmente acontece

Todas as incertezas sobre o que iria passar-se, se sentiria dores e se seriam fortes, qual seria a aparência do que seria expulso, conseguiria eu perceber o que era o feto, e se teria que de facto vê-lo – estas foram as questões que me invadiram a mente durante aquelas semanas em que aguardei a reacção do meu corpo.

Quanto tempo entre o diagnóstico e a explusão?
Da investigação online que fiz, pode demorar de entre 4 a 6 semanas. E durante este período, temos que ser muito bem monitorizadas, para o caso de começar a haver infecção. No meu caso, a expulsão aconteceu três semanas e meia depois da evolução do feto ter parado. Isto pode saber-se pela dimensão com que o feto ficou, e associar facilmente ao tempo de gravidez. Durante aqueles 25 dias, perguntei aos médicos que se cruzaram no meu caminho como seria. Só me disseram sempre que era uma hemorragia forte e que podia causar dores. Uns diziam “algumas” dores, outros diziam “muitas” dores.

As dores
Pelo que percebi posteriormente, a experiência varia com a mulher. Há mulheres que pura e simplesmente abortam de um momento para o outro, têm uma grande hemorragia e está resolvido. Muitas nem sequer chegam a saber que estavam grávidas e pensam que tiveram apenas um período forte. Sei de uma senhora que simplesmente sentiu uma cólica no meio de uma viagem de carro, foi ao quarto-de-banho, teve uma hemorragia, a sogra explicou-lhe o que tinha sido, e seguiu viagem... Outras sabem que estão grávidas e começam a sangrar, até que têm a expulsão alguns dias ou semanas depois, mesmo após muito repouso. Umas sentem pouca dor, outras sentem muita. E isso depende, segundo me explicaram os médicos, do tempo de gravidez e da resistência à dor de cada mulher. A enfermeira da MAC foi a única que não teve rodeios e garantiu-me que teria muitas dores. E tinha razão...

Para o caso de assim ser, e porque na verdade nunca sabemos, convém prevenirmo-nos. Eu perguntei ao médico se poderia tomar algo para as dores, e ele indicou-me Ben-u-ron. Que veio a revelar-se uma bênção.

Quando o momento chega
Depois de 25 dias sem quaisquer sintomas a não ser a hemorragia que me provocou o cytotec, e que desde aí nunca parou totalmente, e da ligeira moínha no baixo ventre, semelhante aos sintomas do período, uma noite comecei a sentir a moinha a aumentar, lentamente, até já ser uma dor, mas perfeitamente suportável. Nessa altura, achei por bem chamar alguém para perto de mim, já que nessa noite estava sozinha. Convém prevenir, para o caso de ser necessário ir ao hospital.
É difícil explicar a sensação daquelas cólicas, mas tem-se vontade de ir ao quarto-de-banho expelir. Das primeiras vezes foi saindo muito sangue, muito grosso, escuro, do tipo coágulos e uma matéria que só me faz lembrar elásticos. E numa dessas vezes, algo ficou preso. Puxei com papel e vi uma espécie de coágulo de sangue escuro em forma de rim. Achei por bem não ser eu a ver melhor, pois poderia impressionar-me, e pedi à minha mãe, que confirmou que era o feto, com cerca de 2 cm.
Naquele momento não posso dizer que tenha sido um grande choque, foi sim um momento de alívio. O aborto retido pode ser complicado de aceitar de início, dada a ausência total de sintomas, mas o tempo de espera dá-nos tempo que aceitar o facto e reagir à expulsão com mais naturalidade. Porque sabemos que naquele momento, o nosso corpo está a fazer o que é melhor para nós, para a nossa saúde.
Ainda continuei a expelir bastante sangue depois disso, mas as cólicas acalmaram. E eu achei que afinal não era tão doloroso como eu pensava.
Mas estava enganada. Porque nos quatro dias seguintes, as cólicas voltaram e com muito mais dores. Tenho que dizer que foi de facto difícil. E eu só dizia ao meu marido: “Para a próxima engravidas tu, está bem??” As cólicas iam e vinham, e eu contrariei as dores com Ben-u-rons. Benditos sejam, que em certas alturas foi muito complicado.
Um dia depois da expulsão, fui à consulta que já tinha marcada na MAC, e o médico confirmou que o feto já tinha saído e que agora restavam pedaços esfarrapados de placenta. Ou seja, foi isso que o meu corpo esteve a expelir nos quatro dias seguintes, e com muito mais dores do que as do primeiro dia.

Quando terminam as hemorragias?
Há mulheres que ao fim de uma semana já pararam de sangrar. Não foi o meu caso. Para mim, as hemorragias não pararam aí, felizmente as dores assim, e restou apenas aquela moinha já mais familiar.
Durante muitos dias, talvez uma semana ou duas, todo o meu baixo ventre esteve muito sensível, tinha até dificuldade em estar sentada, fiquei quase todo o tempo deitada e andava devagar. Duas semanas depois daquela consulta, fiz mais uma consulta, em que o médico confirmou que já não havia vestígios de placenta, e restavam apenas alguns coágulos de sangue no colo do útero. Os ovários também estavam bem.
Mas a hemorragia (não forte como naqueles cinco dias, claro) continuou durante muito tempo. Foi como se tivesse tido um período de 5 semanas. Cada vez mais leve, e mesmo quando pensava que já tinha parado, ainda voltei a ter uma hemorragia, em plena rua, quando passeava nos primeiros dias de férias que tive para pôr para trás os momentos difíceis e recomeçar.
E pronto, a limpeza estava finalmente terminada, e agora era aguardar a vinda do primeiro período.

terça-feira, 4 de Março de 2008

A consulta de Patologia do Primeiro Trimestre

De volta à MAC, mas finalmente no sítio certo.
Foi aqui que um médico finalmente me explicou tudo.

Pôr o Cytotec na altura em que o médico da urgência da MAC mo receitou foi um erro, já que o meu corpo ainda não estava pronto. Ou seja, a placenta ainda estava muito presa ao útero, pelo que as contracções não conseguiriam expulsar nada. Daí só sair sangue, nada mais. Depois de me fazer uma ecografia e mandar fazer análises ao sangue em dois dias diferentes, para ver a evolução dos níveis de HCG, aconselhou-me então a esperar. Simplesmente esperar. Porque muitas vezes o corpo acaba por expulsar naturalmente o conteúdo.

Na altura não me pareceu verdade, já que eu continuava sem sintomas. Mas ele tinha razão.

Usar o Cytotec

Tinha perdido o meu bebé tão desejado. Agora tinha que ter a coragem de expulsar o embrião sem vida de dentro do meu corpo.
Não sei a experiência de mais ninguém a não ser a minha.

Introduzir os comprimidos, dois de cada vez, é desagradável. E constatei que a maioria deles nunca se desfez, mesmo passando-os antes por água, como foi a recomendação do médico. Quando ia pôr os terceiros, ainda lá estavam os segundos, e assim por diante.

Ao fim de umas seis horas de pôr os primeiros, imediatamente tive uma grande hemorragia, mas muito líquida. Suspeitei que nada tivesse de facto acontecido. Os restantes comprimidos nada fizeram.
Voltei à urgência, assisti a muitas mais mulheres felizes, fiquei horas sentada sozinha num corredor, à espera que voltasse a máquina das ecografias, para saber apenas que estava realmente tudo na mesma.

Agora era aguardar a consulta de Patologia do Primeiro Trimestre.

A urgência da Maternidade Alfredo da Costa

Esta é uma experiência que não aconselho mesmo, a não ser que haja de facto uma urgência do estado de saúde da mulher que sofreu um aborto retido.

Como não tinha dores, e na verdade também já não estava grávida, fiquei para o fim. Porque ali a prioridade são as mulheres grávidas. Estive assim horas e horas testemunhando a felicidade de muitas mulheres que chegavam para dar à luz, de outras que apareciam no vidro com os seus bebés recém-nascidos, e as famílias felizes, as chamadas emocionadas, toda a experiência fascinante que a mim me tinha sido retirada.
E a sensação de que somos, para todo o pessoal que ali trabalha, a parte negativa e muito desinteressante do seu trabalho.

Mas lá dentro, ao ser atentida por uma enfermeira mesmo muito antipática, tive as verdadeiras surpresas:
1. A minha médica nunca me deveria ter mandado à urgência da MAC, mas sim à consulta de Patologia do Primeiro Trimestre (primeira vez que ouvi falar de tal coisa)
2. O Cytotec é de facto o único medicamento que a MAC usa para estas situações, não existe nenhum medicamento que tenha sido feito especialmente para este efeito.

E quando lhe perguntei:
- Mas usa-se um medicamento que não foi feito nem nunca foi testado para o efeito?
A resposta foi:
- Ó minha senhora, este medicamento já está testado e mais que testado.

Em conclusão, foi testado portanto nas muitas mulheres que o têm utilizado ao longo dos anos.

Quando fui atendida pelo médico, o Cytotec foi exactamente o que ele me indicou, e lá vim para casa com mais uma receita para aviar.

O Cytotec

Fomos à Farmácia e comprámos o Cytotec. Foi então que, ao lermos o folheto com as indicações, tivémos uma grande surpresa:

Cytotec: medicamento utilizado na prevenção de úlceras gástricas e duodenais, lesões hemorrágicas e erosões induzidas por aspirina.

Ter-se-ia a médica enganado? O farmacêutico não teria lido bem a receita?

Decidimos aguardar pela consulta com a minha médica. E foi então que ela nos explicou que o Cytotec é de facto um medicamento feito para situações muito diferentes, mas que possui um componente que provoca contracções. É o medicamento mais utilizado para o aborto voluntário. Disse-me que há anos atrás todos os médicos receberam um memorando do fabricante, alertando para a utilização correcta do medicamento, e desaconselhando o uso deste em situações de aborto, retido ou voluntário, já que nunca foi testado nesse sentido.

Para ver a página do site do Infarmed sobre este assunto, clique aqui.

De facto, achei fabuloso como uma médica de um hospital, perante uma situação emocional e fisicamente tão difícil, achou por bem receitar tal medicamento, sem ver qualquer necessidade de uma explicação.

Mas a minha médica também não foi muito melhor. Garantiu-me que a Maternidade Alfredo da Costa (MAC) era o único sítio onde havia um outro medicamento, especialmente criado para o efeito. E mandou-me para a urgência da MAC.

E a nossa saúde?

Depois das primeiras horas, em que o choque toma conta de nós, a pergunta que passou a gerir a minha vida foi: e agora?
A primeira coisa a saber é: não entrar em pânico.Mas na altura eu não sabia.
Uma semana depois fiz nova ecografia para confirmar o diagnóstico, num hospital particular. O médico fez-me uma proposta aterrorizadora e ao mesmo tempo tentadora. Ficar já naquela noite no hospital, colocar um medicamento qualquer, esperar 6 horas para ver se o corpo espelia o embrião, e se não houvesse resultado, fariam uma curetagem.

Pois, os médicos - pelo menos muitos deles - nestas alturas falam-nos como se fossemos colegas de trabalho. A curetagem é uma intervenção com anestesia geral que consta na raspagem do útero através da vagina. Poderia voltar para casa no mesmo dia.
Assustador imaginar alguém fazer-nos tal coisa. Mas ao mesmo tempo tentador. Porque o pior de tudo são aqueles dias todos em que carregamos o embrião sem vida dentro de nós. E tudo o que queremos é que saia, para recomeçarmos a nossa vida.

Mas se houve algo que aprendi foi: nunca nos precipitarmos. Nunca.
Como fiquei mais assustada que tentada, combinei com o médico que passava a noite em casa e voltaria na manhã seguinte.
Foi uma sorte. Quando voltei na manhã seguinte, fui atendida por uma médica que me disse que eu ainda tinha o cólo do útero muito fechado, que se forçassem destruiriam as hipóteses de vir a engravidar novamente. E mandou-me para casa com um medicamento para introduzir na vagina: o Cytotec. Aquilo iria provovar-me contracções, donde haveria emorragias. Cinco ou seis dias depois, voltaria ao hospital para verificar se tinha feito efeito, e caso não tivesse, faria então a curetagem.

Por esta altura já estava muito confusa. Dois médicos no mesmo hospital a dizerem coisas tão diferentes. E eu cada vez mais sem saber o que fazer.

Tenho culpa?

Creio que é por isto que, para a maioria das mulheres, este é um assunto tabu. Porque no íntimo, a maioria acha que poderia ter feito algo diferente; que a culpa é sua. Mas não é assim. Cerca de 25% das gravidezes, ou seja, uma em cada quatro, termina no primeiro trimestre e é muito comum na primeira gravidez. O meu actual médico deu-me até números maiores: 35% a 40%. E na grande maioria das vezes, isso significa que na verdade o corpo da mulher está a funcionar. Porque detectou uma anomalia no feto - normalmente anomalidades cromossómicas ou defeitos genéticos - e interrompeu o processo. Quando o corpo não faz isso, acabam por surgir problemas muito mais graves mais à frente na gravidez ou nascimento.
Portanto, a não ser que mulher fume ou consuma drogas, a culpa dificilmente será sua, mesmo que tenha sofrido uma queda. Com um tamanho tão pequeno, apenas alguns centímetros, e inserido num ambiente tão protegido, é difícil que uma queda lhe provoque a morte.

Eu não fui assaltada pelo sentimento de culpa de uma forma directa, mas fui assaltada por uma sensação de incompetência. E de falha perante o meu companheiro. A sensação de que não fui capaz de criar o ser humano que ambos desejávamos, quando tantas mulheres o fazem à primeira, à segunda, à terceira... sem o mínimo problema. E porque um momento tão feliz acabou por tornar-se num momento difícil.
Mas não é assim. A verdade é que a mulher não tem um poder assim tão grande sobre o que se passa no seu corpo a este nível. Há uma grande probabilidade de ter sido apenas a natureza em acção, a fazer o que acha melhor.

Mais sobre outros motivos aqui.

Aborto retido ou espontâneo

Eis as diferenças base:

O aborto retido é aquele em que o embrião ou feto se mantém no útero da mulher, sem quaisquer sinais ou sintomas. Ou seja, ocorre morte fetal mas o feto permanece retido no útero por 4 semanas ou mais. Após 6 semanas dentro do útero, pode desenvolver-se a Sd. do óbito fetal, com CIVD, hipofibrinogenemia progressiva e uma possível hemorragia maciça quando o parto finalmente ocorre. A Sd. do óbito fetal ocorre somente nas perdas do 2º trimestre ou mais tarde.

O aborto espontâneo é aquele em que a perda do produto da concepção se dá sem qualquer instrumentalização, ou seja, é naturalmente expelido pelo corpo da mulher.
fonte: Manual Merck

Tal como vim a descobrir mais tarde, muitas vezes o segundo é consequência do primeiro. Ou seja, após a morte fetal, o corpo acaba muitas vezes por, cerca de 4 semanas depois, expulsar naturalmente o feto. Embora isso não aconteça em todos os casos.

A notícia

Durante um, dois ou três meses (às vezes mais), fantasiamos o futuro. Apegamo-nos ao ser que começa a ser criado cá dentro. Damos-lhe a personalidade que na verdade ele ainda não tem e colocamos sobre algo ainda tão embrionário o peso de todo o futuro.
A minha médica avisou-me logo de início: "Na primeira gravidez, o aborto retido é muito comum. É por isso que mando todas as minhas pacientes fazer uma ecografia às 8 semanas, e não apenas às 12, como é habitual. Porque saber que a gravidez não vai avante às 8 semanas é muito diferente de só saber às 12."
Era verdade, era tudo verdade. De início amaldiçoei-a por me falar no assunto num momento tão feliz. Mas o facto é que me preparou.
Não há sinais físicos. O meu corpo desenvolvia-se como numa gravidez bem sucedida. As mamas e a barriga começavam a aumentar.
Exactamente às 8 semanas fiz a primeira ecografia. De início tudo parecia absolutamente normal, o embrião estava exactamente do tamanho certo para o tempo de gravidez. Por instantes permiti-me acreditar. Foi então que fiz a pergunta: "E o coração a bater, onde está?"
O rosto da médica, as tentativas que foi fazendo, o tom alegre da médica a mudar. Ao fim de poucos minutos, disse-me "em princípio a gravidez não é para continuar."
O mundo parou. E nós ficámos ali a tentar tirar um sentido daquilo tudo. Saímos de lá sem o futuro nas mãos. Ou pelo menos assim parecia.
O sentimento de injustiça é o primeiro a aparecer. Depois entrei um pouco em negação, porque não tinha quaisquer sintomas de que algo estava errado. Procurei freneticamente por toda a internet, na esperança de encontrar relatos de diagnósticos errados. Encontrei alguns, mas poucos. No fundo eu sabia que era verdade.

Coisas da Vida

A vida nem sempre corre como desejamos. E às vezes os momentos de maior felicidade acabam por tornar-se momentos de dôr, em que pura e simplesmente não encontramos sentido. A verdade é que a natureza sabe muitas vezes mais do que nós, e age para nos poupar de maior sofrimento no futuro.

Este pode ser um nome estranho para um blog. Mas prometi a mim mesma abri-lo quando estava a atravessar o momento. Porque percebi que não há apoios, que cada médico diz uma coisa diferente, e - principalmente - porque percebi que o mais importante num momento como este, é sentirmo-nos apenas normais. E saber que lá fora há tantas mais como nós.